Lembro-me do dia em que fomos apresentados oficialmente.
Tinha cerca de 4 anos e fui à tua casa visitar-te. Havia uma festa em homenagem
a um ex-jogador teu. Não posso precisar mas sei que houve um jogo entre uma
equipa júnior tua e uma outra do teu eterno rival.
É óbvio que eu já sabia quem
tu eras. O meu pai e os meus tios já me tinham falado de ti. Nessa altura o meu
quarto já tinha reservado um espaço na parede para ti. Junto com os pósteres da
saudosa equipa do Liverpool dos finais da década 70 e inícios de 80, lá estavas tu, encabeçado por Manuel Fernandes, Vítor Damas, Meszaros,
Jordão, Carlos Xavier, Virgílio, Oliveira, entre outros, sempre prontos a dizer-me boa
noite, e a proteger-me para uma mais noite de sono tranquilo e feliz.
A minha relação contigo era bonita. Acreditava que eras
Grande e Único. Toda a tua História era-me contada, de forma pormenorizada e sempre com
grande orgulho (a singularidade de uma Taça das Taças; o
feito único de 4 campeonatos seguidos; o record de golos de Yazalde). Precisava
de saber tudo para me começar a defender na escola, contra o Benfica de
um, outrora, Eusébio e que, nesse tempo ia fazendo algo que tu tinhas deixado
de fazer há 3 anos, vencer campeonatos. O meu pai contava-me tudo. Mas mesmo
tudo. O que era bom e, também, o que era mau.
Enquanto eu ficava maravilhado com as acrobacias de um tal Futre, ele
contava-me a sua história. O seu surgimento na 1ª equipa, o pretenso empréstimo
à Académica e a fuga para o Porto.
Um dia voltei à tua casa. Promessa de Pai e Mãe. “Vamos
comer à Toca do Leão [creio que era assim o nome do restaurante em baixo da
Bancada Central] e ver o Museu!”. Lá fui, todo contente. Lembro-me de ver as
taças dos campeonatos de futebol, as taças do hóquei e do atletismo (“mais
ninguém tem”, dizia o meu pai, orgulhoso), as vitórias de Joaquim Agostinho e,
com destaque, o pequenino troféu que simbolizava a Taça das Taças, a do célebre
Cantinho do Morais.
O Museu localizava-se junto à antiga sala de reuniões da Direcção.
Na parede, haviam retratos de todos os teus presidentes (estávamos no tempo de
Amado Freitas). Ao ver a foto de João Rocha virei-me para o meu pai e
perguntei: “Foi este que mandou embora o Futre?”. O meu pai diz que o funcionário
que nos acompanhava ficou branco. E, ainda hoje, ao falar deste episódio, recorda-o como o dia em Alvalade abanou, perante a minha inocência e audácia.
À saída, o melhor estava para vir. Junto dos carros do
ciclismo que eu admirava, aparecem vindos de um treino dois capitães, Vítor
Damas e Manuel Fernandes. Duas fotos obrigatórias, sendo que uma delas foi ao
colo do grande “Manelito”. Estava nas nuvens… Lembro-me de ficar admirado a ver
o meu pai a falar com eles (a pedir se dava para tirar foto) e pensar que ele
os conhecia!!
A partir desse dia, se dúvidas houvesse, fazias parte de
mim, da minha vida.
Comecei a ir ao estádio ver-te. Lembro-me das primeiras
lágrimas que verti por ti. Aqueles 0-5 na Luz… que dor… (recuperei essas
lágrimas em Salzburgo, muitos anos mais tarde). Lembro-me dos 7-1 (fui eu quem
avisou o meu pai de tal fenómeno). Lembro-me de gravar o jogo que deu, numa repetição
à noite, narrado pelo Rui Tovar. As vezes que revi essa cassete. Como posso
esquecer essa tarde? Tinha 6 anos de idade.
Lembro-me de, meses depois, desiludires-me no Jamor. De nada
valeu o golo do Marlon. Vi esse jogo sozinho, em casa, enquanto o meu pai
estava, ao vivo, a ver-te perder.
Lembro-me da 1ª vez que te vi, ao vivo, perder. Senti um vazio enorme. Até então, ao vivo eram só vitórias!!
Foi numa eliminatória da Taça de Portugal, contra o Marítimo. Douglas marca um
golão mas falha um penalty e o Carlos Manuel dá uma “casa” tão grande que nos
leva à derrota. Lembro-me que nada daquilo fazia sentido.
Estive ao pé de ti quando foste às meias-finais da UEFA, no início da década de 90.
Estive lá sempre! Na chuva com o Malines, no penalty falhado do Litos, no golo
do Cadete. E na 2ª mão? Como me posso esquecer? O relato na cozinha… O chapéu
do Cadete, o manguito do Marinho Peres e a sua camisola negra. Timisoara,
Vitesse, Bolonha e Inter, sempre lá, a viver, ao vivo, contigo, o sonho
(desfeito nos pés do Oceano e num árbitro manhoso em Milão).
Lembro-me dos anos passarem e tu sem ganhares nada. Começava
a ser difícil defender-te na escola, mas não me vergava. Acreditava em ti. O
teu lema era o meu: Esforço, Dedicação, Devoção e Glória.
Fui a jantares de Stromp com o meu pai e mãe. Ia à Nave
antes e depois dos jogos. Coleccionava cadernetas e sabia todos aqueles que
faziam parte de ti. Defendia os teus mesmo quando não jogavam por ti. Torcia pela Jugoslávia porque jogava lá o Ivkovic, era da Bulgária porque estava lá o Iordanov
e o Balakov (e aquele desmancha-prazeres do Kostadinov…).
Onde houvesse algo teu, imediatamente acolhia-o como sendo
meu.
Estive lá no primeiro título após o jejum. Jamor, contra o
Marítimo. Na tarde de glória do Iordanov e na despedida do Figo, Peixe e
Balakov. Já antes, tinha lá estado com o Porto, num 0-0 de um 10 de Junho, onde
a água acabou e partilhei barras de gelo com os companheiros do lado. Meses
antes desse jogo, tinha estado ao teu lado no dilúvio dos 3-6. Levei o meu
cachecol e o do meu pai (não foi ver o jogo). Lembro-me que nesse dia o
nervosismo era enorme. Será que ia ver-te, finalmente, vencer? Tinha chegado a minha vez de entrar, triunfante, na escola perante os meus colegas benfiquistas e portistas? A desilusão foi
maior e só, a meio da noite, é que as lágrimas (de raiva) se soltaram.
Vi-te na noite em que foste maior que o Real Madrid. Mas já
antes tinha-te visto a seres gozado por uns gafanhotos suíços. Mas também fiz
parte daquela noite em que vergámos o Celtic num Alvalade sobrelotado.
Estive lá no golo do Afonso Martins que derrotou o Porto de
nos devolveu ao Jamor. Na bancada Norte, junto aos dragões que, orgulhosamente,
mandava “ir andar de Metro” (que bairrismo infantil). Meses depois via rebentar, a poucos metros de mim,
um very-light que nos tornou mais pobres e sem sentido nenhum. Porquê? Não
consigo entender.
Vi-te, finalmente, ser Campeão. Alegria maior julgava não
poder assistir. Revivi-a dois anos depois e, a partir daí, até hoje, foi voltar
aos primeiros 18 anos da nossa relação.
Tentei acompanhar-te sempre. Fazes parte de mim, não há como
fugir. No estrangeiro, longe de Lisboa, tentei sempre saber de ti. Nos telefonemas para casa, a primeira preocupação era saber como estavas. Assisti a
jogos fora, vi-te na internet e procuro, constantemente, todas as notícias para
saber como estás.
Os últimos 10 anos foram muito difíceis. Os mais difíceis. Embora
sempre presente desde que tens uma casa nova, foi a partir daí que se tornou
mais complicado proteger-te. As derrotas consecutivas (sendo a mais dolorosa
aquela contra o CSKA – eu estive lá), a forma como te vejo (mal) representado,
a inexistência de rumo, a ausência de qualidade técnica nos treinadores que
escolheste, a falência do ecletismo (não há basquetebol, não há voleibol, és banal em
hóquei, em andebol e, até no atletismo estás a perder a liderança) e a forma
como vejo que enfrentas o Futuro são o espelho da tua imagem. Estás a morrer
mas não dás conta.
Mas, desta vez, não quero ir contigo.
Questiono-me se valeu
a pena estar contigo já há quase 30 anos. Privei-me de conhecimento para estar
contigo. Privei-me de muito dinheiro para te ver. Quantas foram as vezes que
não convivi com pessoas (realmente) importantes da minha vida, porque te coloquei em
primeiro lugar? Quantas discussões tive para te defender? Quantas vezes modificaste o meu humor (para pior), que depois se viria a reflectir no bem-estar de outros, sem culpa? Quantas horas de sono
perdi? Quanto chuva, frio e calor apanhei para não te deixar só? Quantos filmes ou livros não li? Quanto tempo de estudo abdiquei? Não sei contabilizar, mas foi muito.
E para quê? O que é que me deste em troca nestes 30 anos? 2 Campeonatos,
4 Taças e 6 Supertaças!! Algumas vitórias em derbys? Algumas vitórias em jornadas europeias? Medalhas Olímpicas (aqui ainda não há como tu)? Sempre que me davas algo tiravas logo a seguir a
dobrar! Por cada Campeonato ganho desfazias-te logo de metade da equipa!
Hoje vejo-te a ser gozado e humilhado por todos. Vem de fora e de dentro de ti. Desde órgãos directivos do futebol nacional (FPF, APAF, LIGA),
a adversários, a órgãos de Comunicação Social e pessoas que, supostamente, te representam
(dirigentes, comentadores e ex-jogadores ou ex-dirigentes). Todos te pisam. E,
agora, até já têm pena de ti e quando se dirigem a ti, já te tratam como um “coitadinho”.
Caminhas para um Fim triste. Jamais serás o mesmo. Estás
constantemente a dar tiros no pé. Até pode ser que um dia, por breves momentos,
voltes a andar de cabeça erguida, mas será por pouco tempo. Não tens
base para te manter em pé, direito.
Custa-me dizer isto, mas a verdade é que, também eu, já estou
farto, cansado. Revejo tudo o que vivemos e já não consigo acreditar que fiz o
correcto ao ter-te escolhido (e pensava que sim – mas se não fosses tu, também não era mais
ninguém!).
Se pudesse mudar só um dia da nossa história em comum,
mudava o primeiro dia. Queria não te ter conhecido. Tudo aquilo que sofri e
vivi por ti, afinal, foi em vão. Queria não ter tido essa desilusão.
E se me dessem um único desejo, digo-te, com algum egoísmo,
que gostava que desaparecesses, para sempre.
Até um dia.